A proposito do mundo visto através Bildberg

-“Você não sabia? Justamente! Eles escondem a verdade!”
A propósito do mundo visto através Bilderberg*
Albano Cordeiro, Agosto 2011
1. 1. As narrações explicativas compensando uma ausência de racionalidade
Para analisar acontecimentos políticos, e seguir assim a evolução do quadro político das sociedades, existem diferentes métodos.
Tentemos uma apresentação rápida destas formas de descodificação da actualidade, no sentido de lhe dar uma racionalidade, pelo menos plausível, consciente contudo da complexidade das relações entre estes diferentes métodos que não se excluem entre eles.
Passamos rapidamente sobre as explicações [1] de tipo primário que diríamos “universais” (como “resposta a tudo”), de tipo religioso e divino : tudo o que acontece (ou não acontece) provém da vontade de Deus (Jeová, Alá, …).
Citemos igualmente as explicações de tipo supersticioso, entre as quais se coloca a Astrologia. A astrologia conta na formação de decisões pessoais dos que a consideram como factor agindo no quotidiano. Como corolário ela evita certas acções ou comportamentos e por conseguinte certos acontecimentos previsíveis. Ela aparece assim como dando uma suposta racionalidade a acontecimentos e situações vividas. É a sua função explicativa.
Mas poder-se-ia incluir nesta categoria as explicações onde intervém um factor extra-humano agindo -ou supostamente agindo- sobre uma realidade humana. Nestes casos o aspecto “universal” das explicações religiosas pode ser ausente, mas umas e outras têm em comum o facto de serem substitutos irracionais da “racionalidade”, pois esta deriva directamente duma crença (o que não elimina o uso de raciocínios).
São deste tipo as explicações onde intervém agentes diabólicos, incluindo personagens não-humanos que produziriam acontecimentos que são tidos por “inexplicáveis” (caso de aparição de extraterrestres).
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* Clube Bilderberg, nome dado a um encontro anual e informal dum grupo de cerca 130 personalidades, essencialmente americanas e europeias, da diplomacia, de grandes empresas e administrações, de instâncias internacionais, da política e dos grandes órgãos de comunicação social (cf. Wikipédia). Um subgrupo interno está encarregado da agenda de trabalhos e dos nomes dos convidados “não membros” a cada sessão.
A não-mediatização dos assuntos abordados e das suas conclusões, dá um carácter confidencial a estas cimeiras.

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1.2. As narrações explicativas aparentemente elaboradas e parcialmente informativas
Outro tipo de narração explicativa de acontecimentos e de sequência de acontecimentos atribui igualmente a certos actores, individuais mas geralmente colectivos, capacidades superlativas e uma vontade de dominação sobre a sociedade, nacional ou mundial.
Característica comum destes módulos de explicação é a confidencialidade. Um aspecto desta é a discrição (ou silêncio) com que as reuniões periódicas dos membros destes grupos são tratadas pelos grandes órgãos de comunicação social. Este aspecto reforça a qualidade de “poder oculto” que lhes é atribuída.
Convém distinguir, por um lado, o que é relativo à constituição e ao funcionamento destes grupos informais e a sua estratégia para se imporem como centros de influência sobre a vida política dum país ou do mundo, e, por outro lado, o modo como as informações e interpretações que as acompanham, são postas em circulação junto de leitores anónimos ou directamente junto de interlocutores diversos.
Um paradoxo aparente é o facto que esta “invisibilidade” relativa é perfeitamente funcional a um impacto relevante das informações que são postas em circulação. Devido à dita invisibilidade, o leitor ou interlocutor ficam surpreendidos pela importância da informação relativa à acção dum grupo “de que não ouviram falar”. Mesmo se já leram ou ouviram falar da fonte citada, uma informação ulterior, dada como proveniente dessa fonte, risca de repetir o mesmo efeito. O “mistério” que acompanha toda alusão à origem da informação, conserva o seu impacto.
É necessário precisar que, ao contrário dos módulos explicativos de acontecimentos e evoluções sociais, ou políticas, citados precedentemente, o conteúdo das informações factuais fornecidas é verídico, e os diversos passos das interpretações dadas são formalmente coerentes. Há de facto uma racionalidade que é presente num caso e ausente ou escassa nos outros casos.
3. Diversidade de grupos associados à ideia de “poder oculto”.
Nb. A lista que segue não tem quaisquer pretensões a ser exaustiva. Trata-se somente de dar uma ideia da diversidade destes grupos.
1. Grupos a vocação de influência mundial
– Trilateral – criada em 1973, 300 a 400 membros, provenientes da América do Norte, da Europa e da Ásia-Pacífico (ver : http://fr.wikipedia.org/wiki/Commission_Trilat%C3%A9rale)
– Bilderberg – criado em 1954, sob a presidência do Príncipe consorte, Barnard da Holanda, a partir dum grupo pré-existente composto de representantes da Philips, da Unilever e do Banco de Amesterdão. O grupo tornou-se internacional e parte dos seus membros participam igualmente na Trilateral.
Estes dois grupos –próximos- são comummente apontados como embrião- já activo- dum “governo mundial secreto”.
Os participantes e intervenientes nas reuniões que têm lugar anualmente na estação balnear de Davos na Suíça, têm aparentemente as mesmas origens que os que participam nos encontros da Trilateral e da Bilderberg. O facto que o encontro de Davos é publicitado nos órgãos de comunicação social marca pelo menos uma diferença de método de funcionamento. Método que não impede que se tenham reuniões discretas sob tal ou tal tema.
2- Grupos a vocação de influência nacional
– “Le Siècle” (França) – reunião anual de confraternização de decisores (“décideurs”) de grandes empresas e administrações com, em particular, personalidades dirigentes dos grandes órgãos de comunicação social e jornalistas-editorialistas.
3- Estruturas transversais diversamente motivadas
– Maçonaria. Apesar do seu racionalismo cartesiano espiritual (“o saber é o nosso sacerdócio”), e da sua diversidade interna (lojas múltiplas não forçosamente “convergentes”), a Maçonaria funciona como um grupo de pressão em função de interesses mais próximos das classes superiores que das classes populares.
– Opus Dei, dita também “Maçonaria branca”, é um tipo de ordem religiosa próxima do fundamentalismo católico. O seu modo de funcionamento interno e a imagem de organização “discreta” que afixam, assim que o controle exercido sobre uma parte do ensino superior nos países onde está implantada, dão-lhe uma configuração próxima das organizações que são aqui citadas.
4- Antigas estruturas ultrapassadas mas activas nas interpretações históricas
– Illuminati (Baviera, séculos XVIII e XIX), ameaçando a religião cristã e os regimes monárquicos… precedendo as funções que serão mais tarde atribuídas às “seitas judaicas”[2].
– Sinarquia (Synarchie) – sociedade secreta que começa a ser mencionada durante a segunda Guerra Mundial e que será ainda mencionada até aos fins dos anos 70 (… ela teria obrado pela eleição de Jimmy Carter). Ela é apresentada, pelos seus crentes e pelos que a temem como “governo oculto do mundo”[3]. Ela teria infiltrado agentes tecnocratas de “talento” em diversas estruturas que contam a nível mundial.
5- O universo dos lobbies
– A acção cívica cidadã não se concebe sem actos (petições, manifestações, alertar a comunicação social, …) visando a fazer pressão sobre as diversas instâncias de decisão relacionadas com o objecto e o objectivo duma organização cidadã (movimento social, movimento associativo, comités de luta, …).
Em particular, é na tradição do movimento associativo de se reagrupar em vista de “fazer pressão” sobre as autoridades nacionais, regionais, ou locais, assim como sobre eleitos nas diversas assembleias.
Este tipo de actividade é igualmente exercida pelo sector privado empreendedor, com fins de promoção das suas produções. Para esta actividade, o termo usado nos Estados Unidos é o de “lobby”[4]. Mas o termo tomou uma acepção mais larga incluindo acções de outros grupos formais ou informais em vista de alertar a opinião pública sobre tal ou tal situação e de, eventualmente, fazer circular interpretações “orientadas” de acontecimentos e de situações (autovalorização ou, pelo contrario, desvalorização de supostos “inimigos”)[5], [6].
3. “Você não sabia? Justamente! Eles escondem a verdade!”
A questão que é posta aqui é de tentar de analisar as razões que fazem com que a evocação duma informação ou interpretação provenientes deste tipo de fonte provoque um determinado efeito. Trata-se, por conseguinte, de abordar o uso que é feito por uma parte do público que é atingido por estas informações e interpretações. Em geral, estas informações e análises são realmente provenientes das fontes referidas, mas podem contudo oferecer uma mistura de elementos verdadeiros e de elementos duvidosos, sem que possa distinguir o falso do verdadeiro.
As referências a factos e análises atribuídas a estas organizações, são frequentemente utilizadas, ingenuamente ou não, no sentido de reconfortar uma visão complotista de tudo o que se passa no planeta e em particular no que diz respeito às grandes linhas da política nacional e internacional.
Aludiu-se já ao aspecto “mistério” que circunda toda a informação ou análise postas a circular tendo como referência de fonte as estruturas citadas. O leitor ou interlocutor encontra-se face a uma verdade que acaba de ser revelada e é a própria referência (Trilateral, Bilderberg,…) que é tida como certificação.
A teoria do “complot” designa a crença na existência duma conspiração de ordem política, criminal ou civil, com o fim de alcançar uma forma de poder (político, económico, religioso). Ela apresenta-se como uma interpretação de acontecimentos seguindo uma forma de plano elaborado e orquestrado por um grupo mal-intencionado aspirando a dominar o curso da história. A teoria do complot subtrai-se à refutação. Uma prova, contrária ao que é divulgado, é automaticamente suspeita de ser fabricada pelos poderes estabelecidos para invalidar as contradições possíveis. Com efeito, um pressuposto implícito é que os poderes estabelecidos, em particular os meios de comunicação social, agem de forma convergente para ocultar ou desviar a atenção das informações e análises divulgadas . É também pressuposto que esta acção de ocultação é, em definitiva, uma forma de cumplicidade, na medida em que se torna um meio de assegurar uma necessária discreção que se estima ser necessária ao processo de tomada do poder em curso ou do seu exercício.
O próprio do “complotismo” e do conspiracionismo é a denegação prática da complexidade do real. O simplismo é a prática generalizada. Os conceitos de dominação e de ordem mundial que são avançados reduzem os processos complexos que se estabelecem entre sociedade civil e centros diversos de poder a relações com um único centro omnipotente. Ora as construções das ordens sociais são atravessadas por uma quantidade de iniciativas e acontecimentos que escapam ao controlo dos guardiões da ordem. São atravessadas pelo ingovernável e pelo incontrolado. A desordem faz parte do que produz a dita “ordem”. São universos de interacções. Por isso nos parecem pertinentes as análises em termos de “ecossistema” onde se manifestam linhas de força determinantes, nem sempre previsíveis.
Acrescente-se uma retórica recorrente, implícita e/ou explícita, em torno à ideia que “eles escondem-nos a verdade”(7) e que o processo em curso que nos é “escondido” está a tal ponto avançado que ninguém hoje em dia estaria em medida de o fazer recuar.
De resto, para os crentes das teorias complottistas, o processo de dominação mundial por personagens potentes associados, está já em curso. Para alguns, o “governo mundial”[8] está já em função. A conclusão é por conseguinte que nada serve mobilizarem-se para mudar o curso da história, pois face aos meios que “eles” dispõem, a resistência seria uma perfeita veleidade. Tudo o que resta é a denúncia.
Para terminar
Convém precisar que as observações feitas aqui não invalidam o facto que é bem útil estar ao par das informações relatando a acção desses grupos que se propõem incarnar ou são tidos por incarnar o “governo mundial” decidindo em definitiva o futuro de todos nós. Elas são igualmente parte da actualidade, e são úteis para conhecer a relação de forças que se manifestam na sociedade e nas interacções entre a sociedade civil e os poderes estabelecidos, entre os quais se contam os grupos de poder extra-institucionais constituídos por minorias privilegiadas da população, nacional ou mundial.
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[1] Entende-se por «explicação», em relação a um acontecimento, o facto de se tentar dar-lhe uma racionalidade, real ou suposta, apontando não só os factos tais como eles tiveram lugar, a sua sequência e interconexão, mas igualmente os motivos da dinâmica especifica do acontecimento e o objectivo implícito ou explícito que emerge.
[2] Tema do livro de Pierre-André Taguieff, «La foire aux «Illuminés » (2005), citado em entrevista ao autor (Le Monde 2, du 8/11/05, pp. 23/29)
[3] Cf. Olivier Dard, «La Synarchie ou le mythe du complot permanent», colecção Terre d’histoire, edição Yves Manhès, pp. 259+biblio e index, 1998.
O autor pretende que a Sinarquia revive nas estruturas actuais como a Trilateral e Bilderberg
.
[4] O «lobby» faz referência à antessala onde os lobbyistas esperam para ser recebidos por um senador ou membro da Câmara dos Representantes.
[5] Quando se menciona o termo «lobby», o leitor ou interlocutor, espontaneamente pensa no «lobby judeu». Aqui faz-se referência a todo tipo de lobby que faça circular informações ou interpretações num sentido positivo ou negativo para os seus próprios objectivos ou para exercer uma influência sobre imagem social sua ou duma outra estrutura.
[6] Lembremos ainda, para terminar, que a diversas organizações de serviços secretos nacionais são atribuídas capacidades avançadas de produzir acontecimentos que influenciam directamente a situação política dum ou de vários países. É-lhes atribuída igualmente a capacidade de fazer passar interpretações facciosas de acontecimentos verdadeiramente passados ou inventados. Citemos a CIA (Estados Unidos), a KGB (da antiga União Soviética; sigla actual : FSB), gozando da reputação de grande manipulador político, extremamente eficaz, infiltrando inumeráveis organizações, e a Mossad (Israel).
[7] A preocupação dos defensores das teorias complottistas é partilhada por outros meios militantes. A manipulação da dita ”opinião pùblica” é inerente ao funcionamento da democracia “realmente existente”. As forças socio-economicas dominantes formam e estabilizam eleitorados maioritarios, para assegurarem “alternancias” politicas” que não metem em causa o sistema em vigor. A vigilância dos cidadãos sobre o modo como os órgãos de comunicação social informam dos acontecimentos e analizam situações e evoluções em curso, é necessária. Criam-se associações de cidadãos especializados na critica dos midias, e existem publicações diversas sobre esta questão (ex: Henri Maler et Antoine Schwartz, “Medias em campagne – retours sur le referendum de 2005”, ediitora Syllepse, novembro 2005, pp.133). Action-Critique-Médias (ACRIMED, http://www.acrimed.org ) é um exemplo de associação de vigilância e critica dos midias (responsável animador : Henri Maler)
[8] As teorias complotistas centradas sobre a dominação mundial têm já uma longa história. Que pode remontar pelo menos ao século XVIII. A Maçonaria e as seitas sionistas foram, em períodos diversos, contempladas de tais intenções.

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